Tobias era filho de Tobit, um israelita piedoso da tribo de Neftali, deportado para Nínive com seu povo. Tobit destacava-se pela fidelidade à Lei, pela esmola aos pobres e pela coragem de sepultar os mortos abandonados, mesmo arriscando-se. Numa dessas obras de misericórdia, ao dormir ao relento, fezes de pássaros caíram em seus olhos e ele ficou cego, mergulhando a família na pobreza e na provação. Na mesma época, em Ecbátana, na Média, vivia Sara, jovem atormentada porque o demônio Asmodeu matara, um após outro, seus sete maridos na noite das núpcias. Tanto Tobit quanto Sara, em sua aflição, elevaram a Deus oração sincera, e o Senhor enviou o anjo Rafael para curar a ambos (Tb 3,16-17).
Tobit, sentindo-se próximo da morte, lembrou-se de um dinheiro que deixara em depósito na Média e enviou seu filho Tobias para buscá-lo, recomendando-lhe sábios conselhos de fidelidade a Deus, honra aos pais e fuga do pecado (Tb 4). Para a viagem, Tobias encontrou um companheiro que se apresentou como guia: era, na verdade, o anjo Rafael, cujo nome significa "Deus cura", disfarçado em forma humana. Acompanhado também de seu fiel cão, Tobias partiu confiante sob a proteção do mensageiro de Deus.
No caminho, junto ao rio Tigre, um grande peixe quis devorar o pé de Tobias, mas, orientado por Rafael, o jovem o capturou e guardou o fel, o coração e o fígado, que serviriam de remédio (Tb 6). Chegando à Média, Rafael conduziu Tobias à casa de Ragüel, e ali Tobias desposou Sara, sua parenta. Antes de unir-se a ela, o jovem casal rezou juntos, reconhecendo que não se casavam por paixão desordenada, mas para constituir uma família segundo a vontade de Deus (Tb 8,4-8); e, queimando o coração e o fígado do peixe conforme a instrução do anjo, o demônio foi afastado. Ao regressar, Tobias aplicou o fel sobre os olhos do pai, e Tobit recuperou a visão, enchendo-se toda a casa de alegria e louvor (Tb 11).
Por fim, quando quiseram recompensar generosamente o misterioso companheiro, Rafael revelou sua identidade: "Eu sou Rafael, um dos sete anjos que assistem diante da glória do Senhor" (Tb 12,15). Ensinou-lhes que a oração com o jejum e a esmola valem mais que tesouros, e que ele apresentara as orações de Tobit e Sara diante de Deus (Tb 12,7-12). Na história da salvação, o livro de Tobias é uma luminosa catequese sobre a Providência divina, que vela ocultamente sobre os justos, sobre o ministério dos anjos da guarda e sobre a santidade do matrimônio vivido na fé e na oração. Rafael prefigura a ação dos anjos que servem a Deus e protegem os homens, e a cura concedida aponta para Cristo, o verdadeiro médico das almas e dos corpos.
A palavra espiritual de Tobias é um convite à confiança serena na Providência e à fidelidade nas pequenas coisas. Ele nos ensina que Deus caminha conosco mesmo quando não o reconhecemos, que a oração, o jejum e a caridade abrem os caminhos da graça, e que o matrimônio é vocação santa, a ser vivido com pureza e oração. A família de Tobias, provada pelo sofrimento e fiel ao Senhor, mostra que Deus nunca abandona os que confiam nele.
