O Servo Sofredor é a figura misteriosa que se ergue do coração do Livro de Isaías, sobretudo nos chamados "Cânticos do Servo do Senhor" (Is 42, 49, 50 e, de modo culminante, 52,13-53,12). Anunciado em meio às consolações dirigidas a Israel exilado, este Servo é escolhido e amado por Deus, repleto do Espírito, manso e silencioso, chamado a estabelecer o direito e a ser luz das nações. Sua figura transcende a de qualquer rei, profeta ou justo de Israel, pois o profeta o contempla como aquele que cumpriria, na própria carne, uma missão única de salvação.
O papel do Servo na história da salvação revela-se no quarto cântico, onde aparece desfigurado e desprezado, "homem das dores, experimentado no sofrimento", de quem todos desviam o rosto. Como cordeiro mudo levado ao matadouro, ele não abre a boca; carrega voluntariamente as iniquidades de muitos, é ferido por causa dos nossos pecados e "por suas chagas fomos curados". Sua morte não é fracasso, mas oferta expiatória: por entregar a vida, ele justifica os muitos e intercede pelos pecadores, e Deus o exalta e lhe dá uma posteridade.
A Igreja, desde os Apóstolos, reconhece neste Servo a profecia clara da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. O próprio Senhor aplicou a si as palavras do Servo, e o diácono Filipe, partindo deste mesmo texto de Isaías 53, anunciou Jesus ao eunuco etíope (At 8,32-35). O Cordeiro mudo é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1,29); o Justo que sofre pelos injustos é o Redentor que, na Cruz, levou sobre si o peso de toda a humanidade. Assim, o Servo Sofredor é a ponte luminosa entre a esperança de Israel e a realidade da Redenção.