No livro de Jó, o Adversário (em hebraico, ha-satan, "o acusador") aparece entre os "filhos de Deus" que se apresentam diante do Senhor na assembleia celeste. Ali ele desempenha o papel de acusador: questiona a sinceridade da piedade de Jó, insinuando que o justo só serve a Deus por interesse, porque foi cumulado de bens e proteção. "Por acaso Jó teme a Deus sem interesse?", argumenta ele, pedindo licença para feri-lo em seus bens, em seus filhos e em sua própria carne.
Um ponto essencial que a Escritura sublinha é que o Adversário não tem poder próprio nem autônomo: ele só pode agir dentro dos limites que Deus lhe fixa. "Eis que todos os seus bens estão em teu poder; somente não estendas a mão contra a sua pessoa", diz o Senhor; e na segunda prova, "poupa-lhe a vida". Assim, mesmo a ação do mal permanece subordinada à soberania divina, e a provação serve, no plano de Deus, para revelar e purificar a fé do justo. A Tradição católica reconhece neste personagem a figura do diabo, o anjo caído que acusa e tenta, mas cujo poder é sempre limitado e ordenado por Deus ao bem dos que o amam.
À luz de Cristo, a Igreja vê em Jó, provado e fiel, uma prefiguração do Justo por excelência, que venceu o tentador e o acusador. O Apocalipse chama o demônio "o acusador de nossos irmãos, que dia e noite os acusava diante do nosso Deus", e proclama que ele foi vencido "pelo sangue do Cordeiro". O que em Jó aparece como provação suportada na fé, em Cristo se consuma como vitória definitiva sobre o poder do mal.
