Sarai, mais tarde chamada Sara, foi esposa de Abrão e o acompanhou desde Ur dos caldeus até a terra de Canaã, partilhando com ele a peregrinação que Deus lhe pedira ao chamá-lo. A Escritura a apresenta como mulher de grande beleza, mas marcada por uma ferida profunda: era estéril e não tinha filhos (Gn 11,30). Numa cultura em que a fecundidade era sinal de bênção, sua esterilidade parecia fechar todo o futuro, e foi precisamente nessa impossibilidade humana que Deus quis manifestar o seu poder.
O Senhor prometeu a Abraão uma descendência tão numerosa quanto as estrelas do céu, mas os anos passavam e Sara permanecia sem filhos. Na impaciência da fé, ela ofereceu a serva Agar a Abraão, e desse arranjo nasceu Ismael, gerando conflitos e sofrimento. Deus, porém, não havia desistido: mudou-lhe o nome de Sarai para Sara, "princesa", e prometeu que ela mesma, já idosa, daria à luz um filho. Sara riu de incredulidade diante de tamanho anúncio, mas o anjo respondeu com a pergunta que atravessa toda a Bíblia: "Existe algo impossível para o Senhor?" (Gn 18,14). No tempo marcado, contra toda esperança humana, nasceu Isaac, cujo nome significa "riso".
Sara é assim mãe do povo eleito e figura da fecundidade que vem de Deus, e não das forças da carne. São Paulo a recorda como modelo de fé que recebeu o poder de gerar mesmo fora da idade, porque acreditou na fidelidade de quem fez a promessa (Hb 11,11). A Tradição vê nela um anúncio da Igreja, esposa fecunda pela graça, e do nascimento de Isaac uma sombra do nascimento do verdadeiro Filho da promessa, Jesus Cristo, gerado não por vontade humana, mas pelo poder do Altíssimo.
