Sara, primeiramente chamada Sarai, é a esposa de Abraão e a primeira das grandes matriarcas do povo eleito. Saída de Ur dos caldeus e depois de Harã, acompanhou seu esposo na peregrinação rumo à terra prometida, partilhando com ele a vida de nômade e a obediência ao chamado de Deus. A Escritura a apresenta como mulher de grande beleza, mas marcada por uma dor profunda e prolongada: era estéril, "não tinha filhos" (Gn 11,30), o que naquele tempo era vivido como sinal de privação e angústia, sobretudo diante da promessa divina de uma descendência numerosa feita a Abraão.
Nos longos anos de espera, Sara conheceu a tentação de antecipar os caminhos de Deus com meios humanos: deu sua serva egípcia Agar a Abraão, da qual nasceu Ismael (Gn 16). Mas o desígnio de Deus era outro e maior. O Senhor mudou seu nome de Sarai para Sara, "princesa", e prometeu: "Eu a abençoarei e dela te darei um filho... ela se tornará nações, reis de povos sairão dela" (Gn 17,15-16). Quando os três visitantes celestes anunciaram a Abraão, à porta da tenda de Mambré, que dentro de um ano Sara teria um filho, ela riu intimamente, descrente diante da própria velhice; ao que o Senhor respondeu com a palavra que atravessa toda a Escritura: "Existe algo impossível para o Senhor?" (Gn 18,14).
E assim, na velhice, aos noventa anos, Sara concebeu e deu à luz Isaac, cujo nome significa "riso", pois ela exclamou: "Deus me deu motivo de riso; todo aquele que o souber rirá comigo" (Gn 21,6). O riso de incredulidade transformou-se em riso de júbilo e gratidão. Isaac é o filho da promessa, nascido não por força da natureza, mas pelo poder de Deus que cumpre fielmente sua palavra. Sara viveu cento e vinte e sete anos e morreu em Quiriat-Arba, isto é, Hebron; Abraão a sepultou na gruta de Macpela, primeira posse da família na terra prometida (Gn 23).
A Tradição e o próprio Novo Testamento veem em Sara um modelo de fé. A Carta aos Hebreus ensina que "pela fé também a própria Sara recebeu o poder de conceber, apesar da idade avançada, porque julgou fiel aquele que fizera a promessa" (Hb 11,11). São Paulo, na Carta aos Gálatas, faz de Sara, a mulher livre cujo filho nasce da promessa, figura da Jerusalém do alto, a Igreja, mãe dos filhos da liberdade segundo o Espírito (Gl 4,22-31). São Pedro a propõe ainda como exemplo às esposas santas (1Pd 3,6).
Sara nos ensina que a esterilidade humana não é a última palavra diante de Deus, e que Ele é fiel mesmo quando suas promessas parecem impossíveis. Sua história convida a confiar na fidelidade divina nos longos anos de espera, a deixar que o riso da dúvida se converta no riso da alegria, e a reconhecer que para Deus nada é impossível. Em Sara, mãe do filho da promessa, contempla-se de longe o mistério de outra mulher, a Virgem Maria, em quem se realizou o impossível de Deus: a concepção do Filho da promessa eterna.
