Sansão pertence ao período dos Juízes, tempo em que Israel, sem rei, alternava infidelidade e arrependimento, e Deus suscitava libertadores para resgatar o povo da opressão. Filho de Manué, da tribo de Dã, seu nascimento foi anunciado por um anjo a sua mãe, que era estéril, sinal de que aquela vida era dom especial de Deus. Antes mesmo de nascer, foi consagrado nazireu: não cortaria os cabelos, não beberia vinho nem tocaria em coisa impura, pois seria separado para Deus desde o ventre materno e começaria a livrar Israel das mãos dos filisteus (Jz 13).
Sobre Sansão repousou o Espírito do Senhor, que lhe conferiu uma força extraordinária. Despedaçou um leão com as próprias mãos, abateu sozinho exércitos filisteus e, com a queixada de um jumento, derrotou mil homens. Sua força não estava nos músculos, mas no Espírito de Deus que o assistia enquanto permanecia fiel à consagração nazirea, simbolizada nos cabelos jamais cortados. Sansão foi assim instrumento de Deus para humilhar os opressores e despertar Israel.
Sua história, porém, é também marcada pela fragilidade. Atraído pelas mulheres filisteias, deixou-se prender pelo amor de Dalila, que, subornada pelos chefes inimigos, insistiu até arrancar-lhe o segredo de sua força. Cortados os cabelos enquanto dormia, Sansão perdeu o vigor, foi capturado, teve os olhos furados e foi reduzido à escravidão, moendo grãos na prisão de Gaza, ele que fora juiz de Israel. A cegueira física tornou-se imagem da cegueira espiritual em que caíra.
O fim de Sansão é, ao mesmo tempo, derrota e vitória. Durante uma festa em honra do deus Dagon, os filisteus o trouxeram para zombar dele. Mas seus cabelos haviam recomeçado a crescer, e Sansão, arrependido, fez uma última oração: "Senhor Deus, lembra-te de mim e dá-me força ainda esta vez" (Jz 16,28). Apoiado nas colunas centrais, derrubou o templo sobre si e sobre milhares de filisteus, matando mais na morte do que em vida. Nesse gesto de entrega, a Tradição entrevê uma tênue figura de Cristo, que pela própria morte triunfa sobre o inimigo e liberta o povo.
Sansão ensina, por luzes e sombras, que toda força é dom de Deus e que a santidade exige fidelidade aos compromissos assumidos. Seus pecados o enfraqueceram, mas o arrependimento final reabriu o canal da graça. Sua vida convida cada um a guardar a própria consagração, a não confiar na própria força e a crer que Deus, mesmo depois das quedas, ouve quem se volta humildemente para Ele.
