Nos livros sapienciais de Israel, a Sabedoria divina ganha voz e fala em primeira pessoa, como uma figura viva que percorre a história da salvação. Já no livro dos Provérbios ela clama nas praças e nos portões da cidade, convidando os simples a deixarem a tolice e a buscarem a vida (Pr 8,1-11). Mas é sobretudo no célebre poema de Provérbios 8 que sua origem misteriosa se revela: ela é gerada por Deus antes de todas as coisas, antes que existissem os abismos, as fontes ou os montes, estando junto ao Senhor como um arquiteto, como artífice de toda a criação, e fazendo dela suas delícias dia após dia. A Sabedoria não é, portanto, uma criatura entre as outras, mas brota do coração de Deus e participa de seu ato criador.
O Eclesiástico (Eclo 24) leva esse mistério adiante: a Sabedoria saiu da boca do Altíssimo, percorreu o céu e a terra e recebeu ordem de fixar sua morada em Israel, em Jerusalém, identificando-se com a Lei dada por Moisés. O livro da Sabedoria (Sb 7) a descreve como um sopro do poder de Deus, irradiação da sua glória, espelho sem mancha da sua atividade e imagem da sua bondade, mais bela que o sol e que toda constelação. Nela a Tradição reconheceu uma das mais altas preparações do Antigo Testamento para o mistério do Verbo eterno.
A Igreja, lendo essas páginas à luz de Cristo, vê na Sabedoria personificada uma luminosa prefiguração do Filho de Deus, gerado e não criado, pelo qual todas as coisas foram feitas (cf. Jo 1,1-3; Cl 1,15-17). São Paulo proclama abertamente que Cristo é o poder de Deus e a Sabedoria de Deus (1Cor 1,24), e que nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2,3). Assim, aquela voz que clamava nas praças do antigo Israel encontra seu rosto definitivo em Jesus, a Sabedoria de Deus que se fez carne e armou sua tenda entre nós.