Rute era uma jovem moabita, pertencente a um povo estrangeiro e historicamente hostil a Israel. Em tempo de fome, uma família de Belém, formada por Elimelec, Noemi e seus dois filhos, emigrara para Moab, e ali os filhos casaram-se com mulheres moabitas, uma das quais era Rute. A tragédia, porém, abateu-se sobre a família: morreram o pai e os dois filhos, deixando três viúvas. Noemi, desolada, decidiu voltar para Belém e exortou as noras a permanecerem entre os seus. Uma delas, Orfa, despediu-se; mas Rute uniu-se irrevogavelmente à sogra.
O momento decisivo de sua história é a célebre profissão de fidelidade: "Aonde quer que fores, irei; onde habitares, habitarei; o teu povo será o meu povo, e o teu Deus será o meu Deus" (Rt 1,16). Nessas palavras, Rute abandona sua pátria e seus ídolos e adere de coração ao Deus de Israel e a Noemi, escolhendo a fidelidade e o amor mesmo sem nenhuma garantia de futuro. É uma conversão e uma entrega total, expressão de uma fé que nasce do amor concreto.
De volta a Belém, na pobreza, Rute foi respigar nas terras de Booz, parente de Elimelec, homem bom e temente a Deus. Booz reparou na jovem estrangeira e a protegeu, admirando sua fidelidade a Noemi. Seguindo o costume israelita do resgate, em que o parente mais próximo, o goel, devia amparar a viúva e perpetuar a descendência do falecido, Booz tomou Rute por esposa, resgatando a herança da família. Dessa união nasceu Obed, pai de Jessé, que foi pai de Davi.
Assim, a humilde moabita tornou-se bisavó do rei Davi e entrou na genealogia do Messias. O Evangelho de São Mateus a inclui expressamente entre os ancestrais de Jesus Cristo (Mt 1,5), ao lado de outras mulheres. A história da salvação revela aqui que Deus acolhe os estrangeiros que a Ele se convertem e que o sangue de uma pagã fiel corre nas veias do Salvador, prefigurando a Igreja, que reúne todos os povos no único povo de Deus. Booz, o resgatador, é também figura de Cristo, nosso Redentor, que nos resgata e nos faz sua esposa.
Rute ensina a fidelidade que não calcula, a coragem de deixar o conhecido para abraçar o Deus verdadeiro e o valor da bondade silenciosa vivida no cotidiano. Sua vida mostra que nenhuma origem impede a santidade e que a Providência tece, através de gestos simples de amor e lealdade, a grande história da salvação. Como ela, somos chamados a dizer ao Senhor: o teu Deus será o meu Deus.
