Davi era o filho mais novo de Jessé, de Belém de Judá, e cuidava das ovelhas de seu pai quando o profeta Samuel, enviado pelo Senhor, o ungiu secretamente como futuro rei de Israel, preterindo seus irmãos mais velhos, pois "o homem vê as aparências, mas o Senhor vê o coração" (1Sm 16,7). Jovem, corajoso e cheio de fé, tornou-se conhecido ao enfrentar o gigante filisteu Golias armado apenas de uma funda e da confiança no nome do Senhor dos exércitos (1Sm 17,45). Músico habilidoso, tocava a harpa para acalmar o rei Saul, e desde cedo sua vida esteve marcada pelo canto e pela oração.
O caminho de Davi até o trono foi longo e provado: perseguido por Saul, que o invejava, viveu como fugitivo, mas recusou por duas vezes matar o rei que o caçava, respeitando a unção do Senhor sobre ele (1Sm 24 e 26). Após a morte de Saul, foi finalmente aclamado rei, primeiro sobre Judá e depois sobre todo o Israel. Conquistou Jerusalém, fazendo dela a Cidade de Davi, e para ali transferiu a Arca da Aliança, dançando diante dela com toda a força (2Sm 6,14). Por meio do profeta Natã, Deus selou com ele uma aliança eterna: prometeu que seu trono e sua descendência permaneceriam para sempre (2Sm 7,16), promessa que se tornou a raiz da esperança messiânica de Israel.
Davi não foi, porém, um homem sem pecado. Caiu gravemente no adultério com Betsabeia e na morte premeditada de Urias, seu marido (2Sm 11). Mas quando o profeta Natã o confrontou, Davi não se justificou: reconheceu humildemente sua culpa e se arrependeu de coração, dizendo "Pequei contra o Senhor" (2Sm 12,13). A Tradição vê nesse arrependimento a origem do Salmo 51(50), o Miserere, a mais célebre oração penitencial: "Tende piedade de mim, ó Deus, segundo a vossa misericórdia". Davi conheceu ainda muitos sofrimentos, como a rebelião e morte de seu filho Absalão, que o fez chorar amargamente.
A Tradição atribui a Davi grande parte do Saltério, o livro dos Salmos, oração inspirada que se tornou a voz do povo de Deus em todas as suas situações: louvor, súplica, lamento, ação de graças e arrependimento. Vários salmos são reconhecidos como messiânicos: o Salmo 22(21), "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste", citado por Jesus na cruz; o Salmo 110(109), sobre o Senhor que se assenta à direita de Deus; e o Salmo 2, sobre o Rei ungido, o Messias. Assim, a realeza e os sofrimentos de Davi prefiguram a realeza e a paixão de Cristo.
Na história da salvação, Davi é o tipo por excelência do Messias: Jesus é chamado "Filho de Davi" e nasce em Belém, a cidade de Davi (Lc 2,4). O anjo Gabriel anuncia a Maria que Deus dará a seu Filho "o trono de Davi, seu pai", e que "o seu reinado não terá fim" (Lc 1,32-33), cumprindo a aliança eterna. A palavra espiritual que Davi nos deixa é dupla: a confiança do pastor que sabe que "o Senhor é meu pastor, nada me faltará" (Sl 23(22),1), e a humildade do pecador arrependido que encontra na misericórdia de Deus um coração novo. Davi nos ensina a rezar com toda a verdade da alma, e a esperar contra toda esperança no Filho de Davi que reina para sempre.
