Noé surge nas Escrituras numa geração em que "a maldade do homem era grande sobre a terra" e todo pensamento do coração humano tendia continuamente para o mal (Gn 6,5). Descendente de Set por meio de Lameque, Noé recebeu seu nome num gesto de esperança, pois seu pai disse: "este nos consolará de nosso trabalho". Em meio à corrupção universal, ele se destaca como "homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos", aquele que "andava com Deus" (Gn 6,9), expressão que indica uma vida de comunhão fiel e cotidiana com o Senhor. Por isso, "Noé achou graça aos olhos do Senhor" (Gn 6,8).
Diante da decisão de Deus de purificar a terra do mal por meio do Dilúvio, Noé recebeu a ordem de construir uma arca de madeira resinosa, com medidas precisas, para salvar a si, sua esposa, seus três filhos — Sem, Cam e Jafé — e suas mulheres, juntamente com um casal de cada espécie de seres vivos (Gn 6,14-22). A Escritura sublinha sua obediência total: "Noé fez tudo conforme o Senhor lhe ordenara." Por longo tempo ele trabalhou e esperou, tornando-se, como diz a Carta aos Hebreus, herdeiro da justiça que vem da fé (Hb 11,7). Quando vieram as águas, a arca flutuou sobre o dilúvio e preservou o germe da nova humanidade.
Depois de quarenta dias e noites de chuva e de longa espera, Noé soltou o corvo e a pomba; e a pomba voltou trazendo no bico um ramo de oliveira, sinal de que as águas haviam baixado e a paz fora restabelecida (Gn 8,11). Ao sair da arca, Noé ergueu um altar e ofereceu holocaustos ao Senhor. Deus então estabeleceu com ele e com toda criatura uma aliança perpétua, prometendo nunca mais destruir a terra pelas águas, e pôs nas nuvens o arco-íris como sinal eterno desse pacto de misericórdia (Gn 9,12-17). Noé recebeu novamente a bênção da fecundidade: "Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra."
A Tradição da Igreja vê em Noé e na arca uma rica figura de Cristo e da salvação. A arca, único refúgio em meio às águas que tudo submergem, prefigura a Igreja, fora da qual não há salvação, conduzindo os fiéis através das águas mortíferas do mundo. As próprias águas do Dilúvio são figura do Batismo: como ensina São Pedro, aquela água que destruiu os ímpios é imagem do batismo que agora vos salva (1Pd 3,20-21). E a pomba com o ramo de oliveira antecipa o Espírito Santo e a reconciliação trazida por Cristo, o verdadeiro justo que salva a nova humanidade.
Noé nos ensina a fidelidade que persevera quando todos ao redor cedem ao mal, e a paciência de quem confia na palavra de Deus mesmo sem ver imediatamente o seu cumprimento. Sua vida é convite a "andar com Deus" em meio a um mundo corrompido, a edificar com obediência a arca da própria vida sobre a rocha da fé, e a confiar na misericórdia divina, cujo sinal permanente é o arco que brilha após a tempestade.
