Melquisedec aparece no livro do Gênesis de modo súbito e misterioso, no episódio em que Abraão (então Abrão), regressando vitorioso da batalha em que libertou seu sobrinho Ló, é recebido por ele. Apresentado como "rei de Salém" e "sacerdote do Deus Altíssimo", Melquisedec sai ao encontro do patriarca trazendo pão e vinho, e o abençoa em nome do Deus criador do céu e da terra. Em resposta, Abraão lhe entrega o dízimo de tudo. Seu próprio nome significa "rei de justiça", e Salém evoca a paz, de modo que ele é, ao mesmo tempo, rei de justiça e rei de paz.
O que torna Melquisedec tão singular é o silêncio da Escritura sobre sua origem: surge sem genealogia, sem menção de pai, mãe ou descendência, sem início nem fim narrados. Por isso, o Salmo 110, salmo messiânico, proclama do futuro Messias: "Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec". A Carta aos Hebreus desenvolve amplamente essa profecia, apresentando Melquisedec como figura, ou tipo, de Cristo: assim como ele, Jesus é Rei e Sacerdote, não pela descendência levítica, mas por instituição divina, e seu sacerdócio é eterno.
A Igreja Católica reconhece nessa oferta de pão e vinho uma prefiguração da Eucaristia, o sacrifício do Corpo e do Sangue de Cristo. Por isso, no Cânon Romano da Missa, Melquisedec é nomeado entre as figuras cujos sacrifícios prefiguram o sacrifício perfeito do altar. Sua presença fugaz na história de Abraão lança, assim, uma luz que atravessa toda a Escritura até culminar em Cristo, Sumo Sacerdote eterno.
