São Lucas, segundo a Tradição da Igreja, era médico de origem gentia (provavelmente da Antioquia da Síria), o que faz dele o único autor do Novo Testamento que não provinha do povo judeu. São Paulo o chama afetuosamente de "o médico caríssimo" (Cl 4,14), e a delicadeza de seu olhar transparece na beleza literária e na sensibilidade humana de seus escritos. Não foi testemunha ocular da vida pública de Jesus, mas, como ele mesmo declara no prólogo do seu Evangelho, investigou cuidadosamente tudo desde o princípio, recolhendo o testemunho daqueles que "desde o começo foram testemunhas oculares e ministros da Palavra" (Lc 1,2). A Tradição reconhece nele um discípulo dócil que bebeu de fontes apostólicas, e antiga piedade lhe atribui o cuidado em preservar as memórias da Virgem Maria, pois somente ele narra a Anunciação, a Visitação, o Magnificat e a infância de Jesus.
Lucas é o autor de uma obra em dois volumes: o terceiro Evangelho e os Atos dos Apóstolos. Seu Evangelho é chamado o Evangelho da misericórdia, da oração e dos pobres, pois nele encontramos as parábolas do Filho Pródigo, do Bom Samaritano e do publicano que se justifica. Os Atos narram como o Evangelho, pela força do Espírito Santo, se espalhou de Jerusalém até Roma. A partir de certo ponto da narrativa, Lucas passa a escrever na primeira pessoa do plural (as chamadas "seções nós"), revelando-se companheiro de viagem de Paulo: junta-se a ele em Trôade na segunda viagem missionária, reaparece na terceira viagem e o acompanha fielmente na perigosa travessia marítima até Roma, permanecendo a seu lado quando os demais o abandonaram ("só Lucas está comigo", 2Tm 4,11).
A ligação de Lucas com Cristo se dá pelo serviço da Palavra: ele é o evangelista que melhor mostra Jesus como o Salvador universal, voltado para os pecadores, os enfermos, as mulheres e os excluídos, cumprindo a promessa de que toda carne veria a salvação de Deus. Ao escrever os Atos, mostra que a obra de Cristo continua em sua Igreja animada pelo Espírito. A Tradição o venera como evangelista e, por sua atenção à Virgem, a piedade popular o tornou padroeiro dos pintores, dos médicos e dos artistas, simbolizado pelo touro (animal de sacrifício), por iniciar seu Evangelho no Templo com o sacrifício de Zacarias.
