José é o penúltimo dos doze filhos de Jacó, o primeiro nascido de Raquel, a esposa amada. Por isso era o predileto do pai, que lhe deu uma túnica de muitas cores, despertando o ciúme dos irmãos. Jovem, José teve sonhos em que feixes e astros se inclinavam diante dele, o que aumentou a inveja fraterna (Gn 37,5-11). Aproveitando-se de uma ocasião no campo, os irmãos o lançaram numa cisterna e o venderam a mercadores que o levaram para o Egito, e enganaram o pai com a túnica ensanguentada, fazendo-o crer que uma fera o devorara. Assim começa um dos relatos mais comoventes da Escritura.
No Egito, José foi comprado por Putifar, oficial do faraó. Trabalhador fiel e abençoado por Deus em tudo o que fazia, foi posto à frente da casa de seu senhor. Quando a esposa de Putifar tentou seduzi-lo, José resistiu com firmeza e castidade exemplar, respondendo: "Como poderia eu cometer tão grande mal e pecar contra Deus?" (Gn 39,9). Caluniado por ela, foi lançado na prisão. Mesmo ali, o Senhor estava com ele; José interpretou os sonhos do copeiro e do padeiro, e, mais tarde, os sonhos do próprio faraó sobre as sete vacas gordas e as sete magras, anunciando sete anos de fartura seguidos de sete de fome.
Reconhecendo nele o espírito de Deus, o faraó elevou José à dignidade de governador de todo o Egito, encarregado de armazenar o trigo durante a abundância para enfrentar a fome (Gn 41,39-43). Quando a carestia atingiu também Canaã, os irmãos de José desceram ao Egito em busca de pão e prostraram-se diante dele sem o reconhecer, cumprindo os antigos sonhos. Após prová-los, José revelou-se entre lágrimas: "Eu sou José, vosso irmão, a quem vendestes", e os consolou com palavras de fé sublime: "Não fostes vós que me enviastes para cá, mas Deus... para conservar a vida" e "vós intentastes o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem" (Gn 45,5-8; 50,20). Assim reuniu toda a família no Egito e salvou-a da morte.
A Tradição da Igreja contempla em José uma das mais límpidas figuras de Cristo. Filho amado do pai, vendido por dinheiro por causa da inveja dos seus, descido ao abismo da cisterna e da prisão, e depois exaltado à direita do poder para tornar-se salvador e dispensador do pão da vida — tudo nele anuncia Jesus, traído pelos seus, descido à morte e ressuscitado para dar a vida ao mundo. Sobretudo o perdão de José aos irmãos prefigura o perdão de Cristo aos que o crucificaram, e a misericórdia que transforma o mal em instrumento de salvação.
José nos ensina a pureza no meio da tentação, a fidelidade no sofrimento injusto e a serena confiança na providência de Deus, que conduz todas as coisas para o bem dos que o amam (Rm 8,28). Sua capacidade de perdoar, vendo na história mais alta a mão de Deus do que a maldade dos homens, é um dos pontos mais altos do Antigo Testamento e um convite a reconciliar-nos com os que nos feriram, confiando que o Senhor sabe escrever a salvação até com as páginas escuras de nossa vida.
