Jó é apresentado como homem da terra de Uz, íntegro e reto, temente a Deus e afastado do mal, o maior de todos os filhos do Oriente. Rico em bens e em filhos, sua piedade era exemplar, a ponto de oferecer sacrifícios também pelos eventuais pecados ocultos de seus filhos. O livro que leva seu nome relata como Satanás, com permissão divina, o submete a uma prova devastadora: num único dia perde rebanhos, servos e todos os seus filhos; em seguida é ferido de chagas dolorosas da cabeça aos pés. Diante de tudo, Jó pronuncia palavras que se tornaram modelo de adoração na dor: 'O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor'.
O drama de Jó é o do justo que sofre sem culpa proporcional, confrontando a teologia simplista de seus três amigos, que insistem que todo sofrimento é castigo de pecado. Jó protesta sua inocência e clama por um defensor, sem jamais abandonar Deus; chega a proferir a célebre confissão de esperança: 'Eu sei que o meu Redentor vive, e que no último dia me levantarei do pó... e em minha carne verei a Deus'. A Tradição vê aqui um clarão da fé na ressurreição da carne. No fim, Deus responde a Jó não com explicações, mas manifestando sua sabedoria infinita na criação; Jó reconhece sua pequenez, e o Senhor o restabelece, repreendendo os amigos e aceitando a intercessão do justo por eles.
A Igreja lê Jó como tipo do sofrimento do justo que aponta para Cristo, o Justo inocente que sofre pela humanidade. Sua paciência tornou-se proverbial e é exaltada na carta de São Tiago como modelo para os fiéis na perseverança. Mais do que um tratado sobre o problema do mal, o livro ensina que o homem deve confiar em Deus mesmo no abismo da dor, pois a sabedoria divina ultrapassa todo entendimento humano. Jó é assim o orante na escuridão, figura de toda alma que, provada, ainda crê e espera no Redentor que vive.
