Jeremias era filho de Helcias, da família sacerdotal de Anatot, próxima a Jerusalém. Foi chamado ainda jovem, e a sua vocação traz uma das mais comoventes palavras da Escritura: 'Antes de te formar no seio materno, eu te conheci; antes de saíres do ventre, eu te consagrei e te constituí profeta das nações' (Jr 1,5). Diante da missão, Jeremias hesitou, alegando ser jovem e não saber falar, mas Deus tocou-lhe a boca e prometeu estar com ele. Profetizou ao longo de cerca de quarenta anos, sob os últimos reis de Judá, num tempo de decadência religiosa, idolatria e injustiça, anunciando insistentemente a necessidade de conversão.
A missão de Jeremias foi de sofrimento e contradição. Por anunciar o juízo de Deus e a iminente queda de Jerusalém, foi acusado de traidor, perseguido, espancado, posto no tronco, lançado numa cisterna lamacenta e ameaçado de morte. É chamado 'o profeta das lágrimas', porque chorou amargamente pelo pecado do povo e pela ruína que via aproximar-se. Seus oráculos alternam denúncia severa e ternura compassiva, e suas 'confissões' revelam um homem que lutou intimamente com Deus, chegando a amaldiçoar o dia em que nascera, sem jamais abandonar a fidelidade ao chamado recebido.
No coração da sua mensagem está a promessa da Nova Aliança. Em meio às advertências, Deus anuncia por seus lábios: 'Farei com a casa de Israel uma aliança nova... porei a minha Lei no seu íntimo e a escreverei no seu coração' (Jr 31,31-33). Essa profecia é uma das mais altas do Antigo Testamento, pois aponta diretamente para a aliança selada por Jesus Cristo no seu sangue, como Ele mesmo proclamou na Última Ceia. A Igreja vê assim em Jeremias um arauto do Evangelho, que prepara o povo para uma religião não apenas de preceitos exteriores, mas de adesão interior e amor.
Apesar dos apelos do profeta, Jerusalém caiu diante do rei Nabucodonosor da Babilônia. O Templo foi incendiado, a cidade destruída e grande parte do povo levada ao exílio. Jeremias, que tudo havia previsto, viveu a tragédia em pessoa e a chorou; a tradição lhe atribui o livro das Lamentações, pranto sobre a cidade desolada. Ainda assim, no meio da catástrofe, ele comprou um campo em Anatot como sinal profético de esperança, pois Deus prometera que um dia o povo voltaria e a vida recomeçaria naquela terra. Sua figura sofredora, justo perseguido por causa da palavra de Deus, é vista pela Tradição como prefiguração de Cristo, o Justo entregue e rejeitado pelos seus.
A vida de Jeremias ensina que a fidelidade a Deus pode custar a incompreensão e a perseguição, e que o profeta verdadeiro nem sempre é ouvido em seu tempo. Mas ensina também que as lágrimas derramadas por amor a Deus e ao povo não são vãs, e que mesmo nas ruínas é possível plantar sinais de esperança. Que, como Jeremias, não calemos a verdade por medo, e que deixemos o Senhor escrever a sua Lei de amor no íntimo do nosso coração, vivendo já a Nova Aliança que Cristo nos conquistou.
