Ezequiel era filho de Buzi, sacerdote da linhagem de Sadoc, e foi levado cativo para a Babilônia na primeira deportação, junto com o rei Joaquim, por volta do ano 597 antes de Cristo. Vivia entre os exilados de Judá às margens do canal Cobar, longe do Templo de Jerusalém onde, como sacerdote, deveria servir. Foi ali, em terra estrangeira e em meio à amargura do desterro, que o Senhor o chamou ao ministério profético: "No quinto ano do exílio do rei Joaquim... abriram-se os céus e tive visões divinas" (Ez 1,1-2). Sua vocação nasceu não no santuário, mas no exílio, mostrando que Deus não está confinado a um lugar e visita o seu povo mesmo na desolação.
A primeira grande experiência de Ezequiel foi a visão da glória do Senhor: os quatro seres viventes, as rodas cheias de olhos e, acima de tudo, o trono de safira com a figura semelhante a um homem envolto em fogo e arco-íris (Ez 1). Diante dessa manifestação, o profeta caiu por terra, e Deus lhe entregou um rolo escrito que ele deveria comer, doce como mel à boca (Ez 3,1-3): sinal de que a Palavra deve primeiro ser interiorizada antes de ser anunciada. Foi constituído "sentinela da casa de Israel" (Ez 3,17), responsável por advertir o povo. Por meio de gestos simbólicos impressionantes, como deitar-se sobre um lado por longos dias ou suportar em silêncio a morte da própria esposa sem chorar (Ez 24,15-18), Ezequiel tornou-se ele mesmo um sinal vivo do julgamento que viria sobre Jerusalém.
O momento mais doloroso de sua mensagem foi a visão da glória de Deus deixando o Templo (Ez 10-11), abandonando a cidade aos seus pecados antes de sua destruição. Quando finalmente chegou a notícia de que Jerusalém havia caído (Ez 33,21), a missão de Ezequiel mudou de tom: do anúncio do castigo passou ao anúncio da esperança e da restauração. Foi então que proferiu algumas das mais belas promessas das Escrituras: "Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne" (Ez 36,26). E recebeu a célebre visão do vale dos ossos secos, que, ao sopro do Espírito, se cobrem de nervos, carne e pele e se erguem como exército imenso (Ez 37), sinal da ressurreição de Israel e penhor da ressurreição de toda a carne.
Na história da salvação, Ezequiel é o profeta da transcendência e da misericórdia de Deus que reconstrói o que estava perdido. Sua promessa do coração novo e do Espírito derramado encontra cumprimento pleno em Cristo, que no Pentecostes envia o Espírito Santo para habitar nos corações, e nos sacramentos do Batismo e da Eucaristia, que nos dão vida nova. A visão dos ossos secos prefigura a Páscoa, em que Cristo vence a morte, e antecipa a esperança da ressurreição dos corpos que a Igreja professa no Credo. O próprio Ezequiel anunciou um único Pastor, da casa de Davi, que apascentaria o rebanho (Ez 34,23-24), profecia do Bom Pastor que é Jesus.
A palavra espiritual que Ezequiel nos deixa é de esperança inabalável. Por mais que nossa vida pareça um vale de ossos secos, sem futuro e sem força, Deus pode soprar nela o seu Espírito e nos restituir a vida. E por mais endurecido que esteja o nosso coração, o Senhor deseja substituí-lo por um coração de carne, dócil e amante. Cabe a nós, como sentinelas, vigiar e converter-nos, confiando que aquele que viu a glória partir é o mesmo que a viu voltar.
