A esposa de Jó aparece num dos momentos mais sombrios do livro, quando o justo de Uz, despojado dos bens, privado dos dez filhos e ferido de chagas da planta dos pés ao alto da cabeça, está sentado sobre as cinzas. Esmagada também ela pela mesma desgraça, mãe que perdeu todos os filhos, dirige ao marido palavras de desespero: "Ainda perseveras na tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre!" (Jó 2,9). Sua fala traduz a tentação extrema da dor, quando o sofrimento parece tornar absurda a fidelidade.
Jó, porém, responde-lhe com firmeza e mansidão: "Falaste como uma insensata. Se recebemos de Deus os bens, por que não receberíamos também os males?" (Jó 2,10). A repreensão não a condena ao desprezo, mas corrige o impulso da revolta diante da Providência. A tradição cristã vê nela a imagem da fragilidade humana esmagada pelo luto, mas também o contraste que faz brilhar a paciência heroica de Jó. Sua presença lembra que, na provação, a esposa partilha o peso da cruz do justo, e que mesmo os mais próximos podem tornar-se, sem o saber, instrumento de tentação.
