Eliseu, filho de Safat, era um lavrador de Abel-Meolá, e foi chamado ao ministério profético quando arava com doze juntas de bois. Passando por ele, o profeta Elias lançou-lhe o manto sobre os ombros, gesto que significava a transmissão da vocação. Eliseu, então, despediu-se dos pais, imolou os bois, queimou os instrumentos da lavoura e seguiu Elias, servindo-o fielmente. Esse desapego radical de tudo o que era sua segurança prefigura o chamado dos discípulos no Evangelho, que 'deixaram tudo' para seguir o Senhor.
No momento em que Elias seria arrebatado, Eliseu permaneceu junto ao mestre, recusando-se a deixá-lo, e pediu como herança: 'Que me caiba em dobro o teu espírito' (2Rs 2,9). Ao ver Elias subir ao céu no carro de fogo, recolheu o manto que dele caíra e, com ele, dividiu as águas do Jordão, sinal de que o espírito profético repousava agora sobre si. Começava ali um ministério marcado por numerosos prodígios, mais do que os de qualquer outro profeta, todos voltados à vida, à cura e à misericórdia para com os pequenos e necessitados.
Eliseu purificou as águas amargas de Jericó tornando-as saudáveis; multiplicou o azeite de uma viúva endividada, salvando-a e a seus filhos da escravidão; anunciou e depois ressuscitou o filho da mulher sunamita que o acolhera com hospitalidade; tornou comestível a comida envenenada e multiplicou pães para alimentar uma multidão de cem homens, deixando ainda sobras, sinal que antecipa a multiplicação dos pães por Jesus. Curou também Naamã, o general sírio leproso, mandando-o mergulhar sete vezes no Jordão, episódio que o próprio Cristo recordaria para mostrar que a salvação de Deus se estende também aos estrangeiros.
Profeta atuante na vida política e espiritual do reino do norte, Eliseu aconselhou reis, anunciou vitórias e libertações, ungiu Jeú e interveio em favor do povo em tempos de cerco e fome. Sua ação, sempre gratuita e voltada ao bem dos humildes, revela o rosto de um Deus próximo, que se compadece das viúvas, dos doentes e dos famintos. Tão grande foi o poder de vida que nele agiu que, mesmo depois de morto, o contato de seus ossos devolveu a vida a um homem cujo corpo foi lançado em seu sepulcro, último testemunho de que a força divina que o habitava era mais forte que a morte.
A vida de Eliseu nos ensina que herdar o espírito dos santos que nos precederam exige proximidade, fidelidade e o desejo ardente dos dons de Deus. Seus milagres de cura, alimento e ressurreição são como aurora dos milagres de Cristo e da missão da Igreja, que continua a curar, alimentar e levantar os caídos. Que saibamos, como Eliseu, deixar nossos 'bois e arados' quando o Senhor nos chama, e tornar-nos instrumentos da vida de Deus para os mais pobres e esquecidos.
