Daniel foi um jovem da nobreza de Judá, levado cativo para a Babilônia por ocasião das deportações sob o rei Nabucodonosor, no início do século VI antes de Cristo. Junto com seus companheiros Ananias, Misael e Azarias, foi escolhido para servir no palácio real e instruído na língua e na sabedoria dos caldeus. Já nos primeiros capítulos, vemos sua fidelidade: recusou contaminar-se com os manjares e o vinho da mesa do rei, propondo alimentar-se apenas de legumes e água, e Deus o abençoou com saúde e beleza superiores às dos demais (Dn 1,8-16). Desde o começo, Daniel encarna o fiel que permanece íntegro à Lei de Deus mesmo em terra estrangeira e hostil.
O Senhor concedeu a Daniel um dom singular: a interpretação de sonhos e visões. Ele revelou e interpretou o sonho da estátua de muitos metais a Nabucodonosor, anunciando a sucessão dos reinos humanos e, por fim, o Reino indestrutível que Deus mesmo estabeleceria (Dn 2). Sob Belsazar, leu a escritura misteriosa na parede, 'Mane, Tecel, Fares', e anunciou a queda da Babilônia (Dn 5). Sob Dario, por fidelidade à oração feita de janelas abertas para Jerusalém, foi lançado na cova dos leões, mas Deus enviou seu anjo para fechar a boca das feras, e o profeta saiu ileso (Dn 6). Cada episódio confirma que a fidelidade a Deus é mais sábia e mais segura do que toda a astúcia dos poderosos deste mundo.
A segunda parte do livro é dominada pelas grandes visões apocalípticas. Daniel contempla os impérios sob a figura de animais e, sobretudo, vê 'um como Filho do Homem' que vem sobre as nuvens do céu e recebe do Ancião de dias domínio, glória e um reino que não passará (Dn 7,13-14). Recebe ainda a profecia das setenta semanas, que aponta para a vinda do Messias e a consumação da história (Dn 9,24-27), e a promessa clara da ressurreição: 'Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para o opróbrio eterno' (Dn 12,2).
Na história da salvação, Daniel é um dos grandes preparadores da esperança messiânica. O título 'Filho do Homem', que ele recebe em visão, será o que o próprio Jesus assumirá de modo predileto nos Evangelhos, ligando seu mistério à figura gloriosa que vem nas nuvens (cf. Mt 26,64). Assim, as profecias de Daniel atravessam os séculos e desembocam em Cristo, Rei eterno cujo Reino não terá fim, e na vitória final sobre a morte que se realiza na Ressurreição do Senhor e na nossa esperança da vida eterna.
A vida de Daniel ensina-nos a guardar a fé íntegra em ambientes adversos, a fazer da oração constante o centro do dia e a confiar que, mesmo quando lançados na 'cova dos leões' das provações, Deus permanece fiel a quem lhe é fiel. Que o exemplo de Daniel nos fortaleça para não nos contaminarmos com os ídolos do nosso tempo e para manter o olhar voltado, como ele, para o Reino que não passa.
