Ciro, o Grande, é o fundador do Império Persa e uma das figuras mais surpreendentes da história da salvação, pois, sendo um rei pagão, é escolhido por Deus como instrumento de libertação do seu povo. O profeta Isaías, num oráculo admirável, anuncia que o Senhor chamaria Ciro pelo nome e o tomaria pela mão direita, designando-o como seu pastor e até seu ungido, isto é, seu messias para uma missão concreta, ainda que Ciro não conhecesse o Deus de Israel (Is 44,28; 45,1-4). Esse título de ungido, reservado a reis e sacerdotes consagrados, revela o senhorio universal de Deus, que dispõe mesmo dos impérios em favor de seu plano.
Ao conquistar a Babilônia, Ciro promulgou o célebre édito que permitiu aos judeus regressarem do exílio e reconstruírem o Templo de Jerusalém, restituindo inclusive os utensílios sagrados levados por Nabucodonosor (Esd 1,1-4). Assim se cumpriu a profecia de Jeremias sobre os setenta anos de cativeiro, e teve início o retorno narrado nos livros de Esdras e Neemias. A tradição associa ainda ao tempo de Ciro o episódio em que se desmascara a fraude dos sacerdotes do ídolo Bel, mostrando a vaidade dos falsos deuses diante do Deus vivo (Dn 14).
Ciro permanece, na memória do povo de Deus, como sinal de que toda a história, mesmo a dos reinos pagãos, está nas mãos da Providência. O rei estrangeiro que abre as portas do exílio prefigura, de longe, a libertação maior que Cristo realizaria, conduzindo a humanidade do cativeiro do pecado à liberdade dos filhos de Deus.
