O misterioso adversário que luta com Jacó junto ao vau do Jaboc é uma das figuras mais densas de toda a Escritura. Na noite em que Jacó, ansioso pelo reencontro com seu irmão Esaú, ficou sozinho, um "homem" lutou com ele até o raiar da aurora. Vendo que não o vencia, o adversário tocou-lhe a articulação da coxa, deslocando-a, e ainda assim Jacó não o soltava, exigindo dele a bênção. Foi então que o ser misterioso lhe deu um novo nome: "Não te chamarás mais Jacó, mas Israel, porque lutaste com Deus e com os homens e prevaleceste" (Gn 32,29).
A identidade desse adversário transcende a de um simples homem. O próprio Jacó reconhece nele uma manifestação do divino, e chama aquele lugar de Penuel, isto é, "Face de Deus", dizendo: "Vi a Deus face a face e minha vida foi poupada" (Gn 32,31). A Tradição interpretou este combate noturno como uma teofania, uma manifestação misteriosa de Deus por meio de seu Anjo, e como imagem da oração perseverante e da luta espiritual em que o homem se agarra a Deus e dele não desiste até receber a bênção. Os Padres viram aqui uma prefiguração de Cristo, que se deixa, por assim dizer, vencer pela súplica humilde. Jacó sai do combate marcado para sempre, mancando, mas transformado: portador de um novo nome que se tornaria o nome de todo um povo.